Veganismo

Veganismo nas Crianças

Eu e o Filipe não somos pais ainda, mas um dia que tenhamos filhos, tal como todos os pais, vamos querer educá-los de acordo com os nossos valores e os nossos ideais de vida. Sim, isso significa que vamos criá-los de acordo com as nossas convicções vegan. Se numa conversa sobre alimentação o argumento cliché a desfavor do veganismo é “Vais ficar doente, onde é que vais arranjar a proteína? E o ferro?” ou ainda “Nós somos o topo da cadeia alimentar, isso não faz sentido!”, quando o tema é veganismo nas crianças os mais populares são “Mas é uma criança, tem de comer de tudo para crescer saudável” ou a melhor de todas “Não podes obrigar a criança a ser vegan só porque és, eles têm de escolher.”

Para este último argumento respondo através do primeiro parágrafo de um texto fantástico (que aconselho a lerem na íntegra, pois acho que acertou mesmo na mouche) da Laura Sanches, vegan e mãe, que passo a citar:

“Quando o meu filho nasceu, muitas pessoas no perguntaram se íamos impor as nossas escolhas alimentares à criança, com uma certa entoação de crítica, como se estivéssemos a forçá-lo a entrar em alguma seita maluca (…). A essas pessoas respondi sempre que, todas elas sem excepção, impuseram as suas escolhas aos filhos, tal como os meus pais me impuseram a mim e tal como é suposto fazermos normalmente com todas as nossas opções e valores que, naturalmente, vamos procurando transmitir à descendência. Ao que estas pessoas me respondiam que era uma situação muito diferente porque as nossas opções como pais, estariam a condenar o meu filho – pobre criança inocente – a uma vida inteira de diferença e exclusão que dificultariam muito o seu convívio com as demais crianças. Ao que poderia responder que, nesse caso, o erro estava do lado da sociedade ou de quem o rejeitasse e não em nós ou nele.”  in Desabafos de uma Mãe Vegan.

Não tenho experiência no assunto, mas sinto que isto de ser pais e querer educar fora das regras “normais” da sociedade não é coisa para ser fácil. Porque me parece que o trabalho não é só educar os nossos filhos, também vai ser preciso educar os avós, os tios, os primos e todos em redor que contribuem para o desenvolvimento da criança, para que respeitem e mantenham as opções dos pais e não caiam da tentação de fazer o que lhes parece melhor a eles.

Mas será que este tipo de alimentação é mesmo bom para as crianças? Será que podemos ter crianças com saúde, energia e bem desenvolvidas com uma alimentação estritamente vegetal? E quando a mudança é feita em crianças mais velhas, será possível adaptá-las a um novos estilo de vida? Para me ajudar com estas dúvidas pedi ajuda a duas mães –  a Andrea, mãe de um menino de 6 anos e de uma menina de 2 anos, e a Rita, autora do blog Vegan aos 30 e mãe de uma menina de 13 anos – para nos falarem sobre este assunto.

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Retirado do site “PETA kids”

A chegado do Veganismo à família.

A Andrea adoptou o veganismo quando encontrou na alimentação estritamente vegetal uma solução para os problemas de saúde da sua menina, que nenhum pediatra conseguiu tratar. Desde que nasceu que a filha da Andrea sofria com problemas dermatológicos, pele do rosto irritada, vermelha, em carne viva, que após várias consultas em pediatras particulares, dermatologistas, e muito dinheiro gasto, tinha sempre o mesmo diagnóstico: pele atópica em crise devido ao frio do Inverno.  Mas como diz a Andrea “(…) coração de mãe não se engana e lá no fundo sabia que não era só isso (…). Como ela só bebia leite materno comecei a pesquisar na net o tema pele atópica, leite e cheguei à conclusão que tudo o que comia passava para o meu leite (…). Aos 3 meses de vida dela deixer de beber leite de vaca e passada uma semana as manchas vermelhas na cara desapareceram, o efeito inchado dos corticóides desapareceu e aumentou logo de peso, coisa que não acontecia. Nem parecia a mesma menina!”

Aos 6 meses, ao introduzir as papas na alimentação da filha, deu-lhe uma papa não láctea, que supostamente não contém leite na sua composição e comprovou da pior maneira quão falaciosa é essa informação, “Nunca tinha visto nada assim parecido, ela vomitou em jactos constantes, inchou, ficou com respiração ofegante e só acalmou quando lhe dei um anti-alérgico. Depois foi com o ovo e o peixe, o mesmo episódio horrível. A solução for cortar por completo aqui em casa com tudo o que era de origem animal, ler e pesquisar muito sobre o assunto, pois os médicos pouco ajudam, são muito verdes acerca deste tema ou não lhes interessa (…).”

Actualmente Andrea, o marido e os dois filhos fazem uma alimentação totalmente vegetal em casa, abrindo uma excepção aos ovos que as suas galinhas de estimação, que adoram mimos e colo e são alimentadas do modo mais natural possível, por vezes colocam. O cão da família, com 1 ano, é vegan. O que começou por ser uma mudança de alimentação devido a questões de saúde, foi evoluindo para uma mudança de estilo de vida centrada no bem estar animal e do planeta. “Preocupamo-nos com os sapatos que calçamos, com a roupa, com o bem estar animal, seja de que animal for. Também nos preocupamos com as visitas familiares ou da escola a circos e zoos pois não vai de encontro ao que acreditamos. Temos uma visão mais alargada sobre o nosso corpo e sobre os verdadeiros alimentos que necessitamos para nos sentirmos bem. Não é preciso ter um peixe ou um frango no prato para ficarmos saciados. Os meus filhos são saudáveis, é raro estarem doentes, o meu filho tinha imensas otites e andava sempre doente e desde que deixou de comer lacticínios nunca mais teve esses problemas. Eles são crianças com imensa energia, alegres e atentas com o que consumimos.”

 

Com a Rita as coisas processaram-se de modo ligeiramente diferente. O veganismo entrou na sua vida numa altura em que já tinha uma filha crescida, embora também tenha sido um problema de saúde o impulsionador para a mudança, como ela nos conta “Sempre fui muito curiosa em relação a este estilo de vida, (…) sempre que conhecia alguém vegetariano as perguntas começavam e a curiosidade sempre venceu o preconceito, mas não passou daí (…). Dei por mim aos 29 anos cansada, desmotivada, sem energia, deprimida e desolada por me sentir assim, era um ciclo vicioso. Um dia ao desabafar com uma amiga que trabalhava no hospital ela ofereceu-se para me fazer análises e quando soube o resultado ligou-me assustadíssima, porque eu tinha uma anemia grave. Fui ao médico, tomei umas ampolas HORRÍVEIS e quando cheguei ao fim jurei para nunca mais. Comecei a pesquisar sobre alimentos ricos em ferro, a ler, aprender e a pensar muito nas consequências da minha decisão e cheguei à conclusão que tinha de mudar a minha alimentação. Tornei-me vegetariana durante 3 ou 4 dias até que vi o Earthlings (Terráqueos) e percebi o quão estúpida a minha existência era, ali estava eu preocupada com a minha vidinha enquanto milhões de seres vivos tinham um fim inaceitável tudo por nossa culpa. Tomei de imediato a decisão de deixar de comer produtos de origem animal e tornei-me Vegan, aos 30. :) Foi a melhor decisão que podia ter tomado, para além da alimentação ter posto fim ao meu cansaço e falta de energia, encontrei também um novo sentido para a minha vida sem cor. :)”

Mas com esta decisão veio outro desafio: mudar a alimentação de uma filha já crescida e com opinião. “Apesar de compreender o meu ponto de vista ainda está muito automatizada para discordar e duvidar do que lhe digo, na escola ensinam-lhe outras coisas e o pai e a outra parte da família reforça essa informação. No entanto aceita e até me chama a atenção quando vamos às compras e pego nalguma coisa que tenha ingredientes de origem animal”. Rita tenta não arranjar confusões, quando a filha está com o pai a rotina é a que costumava ser antes do veganismo mas quando está com a mãe já sabe que as coisas são diferentes e respeita-as. “A minha filha está a atravessar a adolescência, tem 13 anos e tem perfeita noção do que é o veganismo, eu não lhe escondo as coisas, explico e mostro pequenos vídeos e faço-a entender o mal que está por trás das industrias que abusam dos animais. Como tal, ela é mais sensível a determinadas coisas, pede-me para ir ao Cirque du Soleil e pergunta-me se certas marcas testam em animais. Tenho confiança que assim que tiver idade mental para se decidir, que vá optar pelo veganismo.”

 

No prato de uma criança vegan

Em relação à alimentação, Rita acha que o que causa mais confusão à filha nem é a falta de carne ou peixe mas sim não ter em casa da mãe bollycaos, gomas, panrico ou outros alimentos processados que os amigos comem. Ao invés tem “(…) bolos caseiros, pão de sementes e frasquinhos com coisinhas, acho que isso a “incomoda” mais ;).” Está habituada a comer sopa, salada e todos os legumes que lhe colocam no prato e a sua comida vegetariana preferida é Legumes à Brás (sem as natas) e Risotto de Espargos e Cogumelos (receita aqui, sem o queijo). Quando está uma temporada longe da mãe, Rita nota que a filha vem mais gordinha, cansada, sem energia e apática e associa isso à alimentação.

Para os filhos da Andrea os pratos mais pedidos são seitan à brás, beringela recheada, seitan à alentejana e os rissóis caseiros. “(…) Os meus filhos estão habituados a comer de tudo, bróculos, grão ou feijão e outras coisas que fazem parte do nosso prato. Comem sempre sopa, seja ela qual for e mesmo o mais velho que por vezes tenta dar a volta, acaba a raspar bem o prato.” 

 

Desafios fora de casa

Para crianças com uma alimentação vegetariana, as situações sociais podem ser o mais problemático. Nos jantares de família e amigos Andrea prefere levar a comida ou preparar na hora para que vejam como é simples fazer pratos vegetarianos deliciosos. Este ano a filha de Andrea foi baptizada e o almoço foi em modo vegano para todos os convidados, outra oportunidade de mostrar como a comida vegetariana pode ser saborosa e perfeitamente “festiva”. Por outro lado o filho, de 6 anos, no ano escolar passado ainda almoçou na escola o mesmo que os outros colegas para não ser marginalizado, Andrea queixa-se que na escola é difícil as crianças comerem um almoço vegetariano ou vegano.

Seria bom que se eliminasse estas diferenças entre as crianças “omnívoras” e as crianças vegetarianas. Que este tipo de alimentação não seja visto apenas como uma “mania” mas sim algo com tremendos benefícios para a saúde, como já foi dado aqui o exemplo. “Acredito com todas as minhas forças que a alimentação vegetariana é a melhor para todos e se puderem começar em crianças é realmente benéfico em todos os sentidos.”, diz a Rita.

Inspirações

Para quem está interessado em saber mais sobre o vegetarianismo nas crianças e procura inspiração para receitas que poderá fazer, aqui ficam algumas sugestões de leitura:

 


 

Há por aqui mamãs vegan?

Qual é a vossa experiência?

E que leituras recomendam??

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10 Comments

  • Reply Green Food Outubro 9, 2014 at 11:38 am

    Ainda não sou mãe mas achei este tema muito interessante :)
    Irá ajudar-me no futuro provavelmente ;)

    Beijinho

  • Reply Anouska Outubro 9, 2014 at 9:25 pm

    Excelente post :)

  • Reply M De Lourdes Carapelho Outubro 10, 2014 at 5:07 pm

    Muito bom texto! Excelentes testemunhos <3

    E deixo aqui as minhas sugestões de leitura e para quem queira acompanhar:

    Página com informação e receitas:
    https://www.facebook.com/familiasveganas

    Blog inspirado no meu neto:
    http://afonsovfx.wordpress.com/

    Beijinhos!

    • Reply Not Guilty Pleasure Outubro 14, 2014 at 12:22 am

      Obrigada M de Lourdes pelos links, mais informação é sempre útil! :)

  • Reply Aislin Outubro 15, 2014 at 11:02 am

    Adorei este post…
    Sabes, a maternidade e a forma de educação que irei implementar é sempre acendalha para uma discussão.
    Ninguém percebe, ninguém concorda.
    É ridiculo e incoerente… Enfim..
    Beijinhos

    • NotGuiltyPleasure
      Reply NotGuiltyPleasure Outubro 18, 2014 at 5:09 pm

      São temas muito complicados porque tudo o que foge à norma das famílias é estranho. Mas com tempo, calma e muita paciência as mudanças são aceites. Também tenho noção que um dia irá ser complicado para mim, mas tudo vai correr bem! ;)

      ****

  • Reply Rita Leal Outubro 22, 2014 at 12:19 pm

    Olá, eu sou vegetariana ha pouco tempo e de facto existe uma grande pressão social, por exemplo, deixam-nos de convidar para jantares porque só como “legumes” (tambem ha muita ignoracia em relação ao que é de facto o vegetarianismo), as pessoas comentam sempre se depois nao fico com fome e outras coisas assim do genero. Não sou mãe e por acaso já tinha pensado neste tema e ainda é um tópico por resolver, visto que o meu namorado nao é vegetariano.

    • NotGuiltyPleasure
      Reply NotGuiltyPleasure Novembro 2, 2014 at 6:14 pm

      É um assunto delicado Rita, isso que fala de deixar de ser convidada é realmente triste, as pessoas têm medo do desconhecido e em vez de tentar perceber o que podem fazer acabam por afastar para não ter a preocupação. Antes de ser vegetariana também não sabia muito sobre o tema, por isso também me consigo pôr do outro lado, acho cabe a nós fazermos ver a quem nos rodeia que é fácil partilhar uma refeição connosco, embora também seja necessária alguma compreensão de quem não é vegetariano. Aos poucos acredito que o vegetarianismo vai deixar de ser o bicho papão! :)

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