Veganismo

O Veganismo além do prato

Há uns dias atrás li um texto que me deixou a pensar em que fase do “meu veganismo” me encontro. Na verdade é algo que já ando a pensar/sentir há algum tempo, mas que se materializou ali, naquele texto, naquelas palavras.

O texto intitula-se “Sai da tua bolha vegan” e, resumindo muito a ideia, fala de como o facto de nos rodearmos de pessoas, noticias ou imagens que nos fazem sentir confortáveis, dão-nos a ilusão que tudo à nossa volta vai de encontro aos valores que acreditamos. Para quem quiser ler o texto na íntegra, o que recomendo, é este.

Pensado nesta ideia da bolha, sei que não estou totalmente nela. Exceptuando o marido, a minha família não partilha dos meus valores acerca do veganismo, a maioria dos meus amigos não é vegan, trabalho em farmácia, uma área que de vegan não tem nada e vivo numa zona cuja identidade cultural baseia-se em “espectáculos” de tortura animal. No entanto percebi que, talvez como compensação destes aspectos, o resto que escolhia ver, ouvir, ler, deixavam-me um pouco nessa bolha onde tudo era amor e compaixão, videos de animais felizes a brincar, histórias de mudanças de vida inspiradoras graças ao veganismo, imagens de comida deliciosa. Alguém sente o mesmo?

Na altura em que decidi que ia “ser vegan”, a alimentação foi o meu foco principal como acho que acontece a toda a gente que faz esta mudança na sua vida. Era sobre comida que mais lia, mas lá pelo meio foram surgindo outros temas como o (ab)uso animal na indústria cosmética (coisa que aqui a licenciada em farmácia que vos escreve nunca tinha pensado, a esperta…), na indústria têxtil, um pouco por todo o lado a bem dizer, que me fizeram perceber que o veganismo ia muito para além de deixar de comer carne.

Quando achei que já sabia de tudo sobre veganismo e ética animal, deixei de ler sobre esse tema. A cozinha continuava a interessar-me e o meu foco começou a ser a alimentação vegan saudável. Fiz workshops, fiz um curso de cozinha, pensava nos nutrientes, que alimentos eram “bons e maus”. A consciência ética no veganismo era já algo tão natural que eu já nem pensava muito nas escolhas que fazia no meu dia-à-dia. Estava em piloto automático.

 

Ter chegado a essa conclusão, há alguns meses atrás, começou a incomodar-me.

 

Não podemos deixar de pensar no PORQUÊ das escolhas que fazemos. O que a nossa sociedade faz com animais, com o planeta e mesmo connosco próprios é demasiado grave para não pensar.

Viver rodeado de imagens bonitas e apetitosas nas redes sociais é maravilhoso. Batidos verdes, pudins de chia, saladas coloridas, comida vegetariana cheia de nutrientes, bolos lindos feitos sem ovos, leite, manteiga e todos os demais. Ninguém gosta de ver um animal a ser torturado. Mas essa é a realidade e não podemos esquecê-la.

O incómodo que comecei a sentir trouxe-me a necessidade de me afastar um pouco do tópico da alimentação, porque o veganismo não é uma dieta. A alimentação vegetariana é um dos grandes pilares do veganismo e talvez a maior mudança que se pode fazer em prol de vivermos do forma mais consciente e compassiva. Mas o veganismo vai para além do prato.

 

Veganismo é um compromisso diário de que todas as nossas escolhas são feitas com consciência, de modo a reduzir ao máximo possível a exploração animal e o impacto que temos no nosso planeta. É o lembrar todos os dias o PORQUÊ. Porque é que como X em vez de Y. Porque é que compro A em vez de Z. Qual a consequência global das minhas escolhas.

 

Esse é o meu veganismo. O meu veganismo não é o dos batidos verdes. Manter os olhos fechados “porque já sei o que se passa” deixou de ser solução. Tal como li no texto que refiro logo no início, se não estivermos todos os dias conscientes daquilo que acontece, não temos impulso para mudar este mundo em que vivemos. Se o nosso veganismo for só o mundo colorido das frutas e vegetais, acabamos por “ignorar” que há mais para além disso e que é preciso trabalhar para mudar o pensamento social actual.

 

Então vou sair da minha bolha. Vou sair da zona de conforto que criei, vou ler, ver e ouvir aquilo que acho que já sei mas que preciso de relembrar todos os dias. Vou fazê-lo para não deixar cair na banalidade o porquê das escolhas que faço. Vou fazê-lo para ter coragem para lutar por uma alternativa ao modo como vivemos agora e deixar às nossas gerações futuras um mundo mais compassivo, forte e saudável. Vou usar as ferramentas que tenho para deixar sementes em todos os lados, na esperaça que alguma floresça, ensinando pelo exemplo e sendo a mudança que quero ver (tãaao cliché mas a maior verdade!). Não mais deixar de tocar nos pontos sensíveis porque “não estou para me chatear com a conversa e o gozo do costume” pois nunca sabemos o impacto que podemos ter.

 

E quanto à história de “eu sozinho não mudo nada”, gosto muito de me lembrar de uma citação do Dalai Lama que diz “Se achas que és demasiado pequeno para fazer a diferença, tenta dormir com um mosquito no quarto”. ;) 


 

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