Veganismo

Entrevista: Rita Vlinder

A convidada do post de hoje é vegan straight edge, activista pelos direitos dos animais e dos humanos e criadora de deliciosas sobremesas vegetais. Estou a falar da simpática Rita Vlinder e aqui está um pouco da sua história com o vegetarianismo.

rita

Como e quando surgiu o vegetarianismo/veganismo na tua vida?

Considero a minha história engraçada já que normalmente uma pessoa torna-se vegan através de outro vegan, mas no meu caso devo dizer que foi através de uma carnista. Estava numa aula, na Universidade de Mills College em CA EUA e a professora pediu-nos como trabalho de casa uma redação com argumentos contra ou a favor do uso de peles. Eu manifestei-me imediatamente a dizer que era contra e que achava abominável usarem peles! Mas uma rapariga, a Kim, disse muito tranquilamente “eu sou a favor e adoro usar peles”, eu fiquei indignada e disse-lhe “como é possível?” ao que ela respondeu directamente “Mas tu és uma hipócrita!”. Sim, foi mesmo esta a frase que mudou por completo a minha vida, “És uma hipócrita porque comes animais!”. Eu fiquei absolutamente perplexa no início mas depois pensei “Ela tem toda a razão”, nunca tinha feito a conexão entre o animal e o produto que comprava no supermercado, nunca tinha compreendido essa ligação nem o sofrimento que estava a causar porque considerava ‘normal’. No processo de escrever a redação pesquisei imenso sobre tortura e sofrimento animal em todas as suas formas e ao ler um artigo específico chorei imenso e senti-me tão revoltada que disse para mim mesma que nunca mais iria comer carne outra vez! À medida que fui pesquisando dei de caras com o termo vegan, que fez todo o sentido para mim e, desde aí, adoptei-o como estilo de vida. Assim tem sido desde 2007!

 

Quais as maiores mudanças que verificaste em ti própria depois de teres aderido a este estilo de vida?

Experienciei várias alterações, umas mais imediatas que outras. Senti-me logo mais leve, que este tipo de alimentação/estilo de vida não pesava no meu estômago e também senti-me leve em termos de consciência. Passados alguns meses deixei de ser anémica, para além de ter deixado de ter tantas dores a nível menstrual. Está provado que proteína vegetal tem bastantes benefícios a esses níveis! Com o passar do tempo senti-me cada vez mais pacífica, calma, com sentimentos positivos que só consigo expressar como sendo “amor por tudo e por todos”. Hoje em dia tenho muito mais energia e vitalidade, mais vontade de viver. Sinto que tenho um propósito de vida, algo superior a mim mesma, que dá sentido à minha existência.

 

Qual é para ti a maior dificuldade de ser vegan?

Não considero difícil ser vegan, muito pelo contrário. É apenas uma questão de hábito. Contudo, e para ser honesta, penso que o contexto social onde estamos inseridos é o que dificulta mais esta caminhada. As reacções sociais, sejam de familiares ou amigos ou até indivíduos que não estão em contacto com a causa e que a ridicularizam ou são desagradáveis. No entanto penso que seja uma reacção normal por se sentirem na defensiva e também por desconhecimento. Todos nós já estivemos nesse lugar, portanto de certa forma podemos compreender, apesar de nem sempre ser fácil lidar com estas pessoas.

 

Durante este teu percurso no veganismo quem mais te inspirou/inspira?

Inicialmente a pessoa que me inspirou ou ajudou mais foi o Kevin Tilman, pois era o único vegan (que também é raw) no contexto onde estava inserida. Ele forneceu-me imensa informação e mostrou-me locais veganos na área, para além de me ter aconselhado livros e documentários para ver. O Gary Yourofsky é sem dúvida alguma a minha grande inspiração. Admiro imenso o trabalho dele, o facto de ser incansável, por ser um grande activista e lutar incessantemene pelos direitos dos animais. Actualmente a pessoa que me inspira mais recentemente é o Miguel Nómada, não só por ter vários projectos ligados ao veganismo (como a Fair-Fair, Rise Clan, GAEA, xAIMx, etc.) mas também por ser um exemplo do género de pessoa que eu pretendo ser. Foi através das suas zines que tive conhecimento do estilo de vida “vegan straight edge”, que também assumi. O Straight Edge é uma forma de estar que rejeita qualquer tipo de drogas, seja tabaco, álcool, fármacos, etc, como posição firme contra a opressão. É uma forma de rejeitar a alienação que nos é imposta nesta sociedade, um grito de revolta contra a exploração, seja de animais humanos ou não-humanos.

 

Sendo o activismo uma parte importante da tua vida, fala-nos um pouco sobre isso. O que é, o que significa para ti e qual achas ser a melhor maneira de sensibilizar as outras pessoas para escolhas de vida livres de crueldade.

Bem, activismo para mim é lutar por algo que defendemos. Sou activista por várias causas, não sinto que seja algo separado. Luto por animais humanos e não-humanos, luto por todas as vítimas, pelos oprimidos, luto pela liberdade de todas e todos pois até todos sermos livres ninguém o será! Penso que existem várias formas de fazer activismo. Costumo brincar que existe o activismo de bancada, quando as pessoas só expõem a informação através da internet, mas qualquer activismo é importante e faz a diferença! No meu caso também penso que seja fundamental ir a manifestações, protestos, vigílias, sejam acções interiores ou exteriores, mais directas e outras não tão invasivas. No final todos nós somos activistas com garfos na mão. O que escolhemos comer é sem dúvida um acto de protesto, uma decisão ética de não contribuir para exploração animal, independentemente da embalagem. Considero que boicotar marcas que envolvem exploração animal também é uma forma de activismo, pois todos nós votamos num mundo melhor com as escolhas que fazemos, com os produtos que compramos e contribuimos. Acima de tudo o que importa é fazermos o que podemos da melhor forma que sabemos, tendo em conta que é um caminho que percorremos que nunca está terminado.

 

Criaste um (delicioso) negócio vegano, a “Sweet Empathy”. O que é e como surgiu a ideia?

A Sweet Empathy surgiu do meu interesse e paixão crescente pela pastelaria vegana. Depois de ler o livro “Como água para chocolate” não consegui ver os alimentos da mesma forma. Compreendi como colocamos imenso no que cozinhamos e eu queria transmitir uma mensagem com a melhor forma de chegar às pessoas que sabia: a comida. A Sweet Empathy transmite empatia e compaixão por todos os seres. Pretende quebrar mitos e preconceitos e cativar toda a gente. Criei a Sweet Empathy por sentir necessidade de produtos mais conscientes, não só que primassem pela nossa saúde, mas que tivessem em conta o bem-estar animal e a redução da nossa pegada ecológica. Nós somos o que comemos, portanto sejamos saudáveis, éticos e ecológicos. Foi com base nestes princípios que surgiu a Sweet Empathy.

O que nunca falta na tua despensa?

Óleo de coco! É absolutamente imprescindível. Para além de ter imensos usos é um produto que gosto de usar com frequência. Uso de manhã quando faço “oil pulling”, uso para fazer máscaras faciais, para cozinhar, fazer bolos, para hidratar, etc. É mesmo incrível!

 

Produto vegan preferido?

O copo menstrual, sem dúvida! Mudou a minha vida radicalmente, para bem melhor. No meu caso uso o Lunette mas existem várias marcas no mercado. Para mim o copo é incrível por ser vegan, ecológico, acessível e muito mais cómodo.

Qual o teu (not) guilty pleasure?

Hummm…. Tarte de Chocolate com Natas. Vegan e sem glúten! :)

tarte

Foto de Rita Vlinder, retirado do site Sweet Empathy

Por fim, que conselho deixarias a quem está a dar os primeiros passos no veganismo?

Penso que esta decisão depende sempre de quem a toma, não posso aplicar uma regra pois todos nos temos ritmos diferentes. No meu caso foi algo imediato, mas penso que será positivo se for algo gradual. Acima de tudo deve ser uma decisão feita pelos nossos próprios passos, sem qualquer pressão ou influência. Aconselho que pesquisem bastante, que se informem bem a nível nutricional, que vejam documentários sobre o tema, que esclareçam qualquer dúvida com outros vegan. O meu conselho: tenham calma, sei que pode parecer demasiado no início, mas pouco a pouco torna-se mais fácil. Para lidar com outras pessoas não-vegan aconselho o livro “Living Among Meat Eaters” da Carol J. Adams. Para mim foi uma grande ajuda!

GO VEGAN!  :D


 

Obrigada Rita por teres aceite o convite, gostei imenso de conhecer a tua história! Espero que aí desse lado tenham gostado também!

Para encomendarem  as sobremesas deliciosas da Rita, totalmente vegetais e sem glúten, procurem-nas no site da Sweet Empathy e sigam no Facebook.

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4 Comments

  • Reply M De Lourdes Carapelho Outubro 3, 2014 at 12:38 am

    Excelente!
    Orgulhosamente <3, apesar de não conhecer a Rita pessoalmente, tenho imenso orgulho por um dia o seu caminha se ter cruzado com o meu! É Sweet Empathy :D
    (desculpem a redundância)

    ;) malandreca!!! Adorei conhecer mais um pouco desta menina que já admirava!

  • Reply Aislin Outubro 3, 2014 at 7:55 am

    Fantástico! Vejo agora como os caminhos que levam alguém ao vegetarianismo/veganismo são tão diferentes! Espero ser um dia, um pouco mais como a Rita.. um pouco mais activista!

    Parabéns! :)

    beijinhos

    • Reply Not Guilty Pleasure Outubro 14, 2014 at 1:18 am

      É verdade Aislin, cada um tem o seu percurso e a sua história e é engraçado ver como tantas experiências diferentes nos levam para um caminho comum :)

      beijinhoooo*

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