Receitas

Descomplicando a culinária vegetariana e uma massa com creme de ervilhas

Depois do último post, em que senti que as palavras me saíram numa forma menos positiva, quis libertar este que está aqui em rascunho desde o início do Verão (#prémiodepiorbloggerdoano) para dizer que continuo a achar que falar de alimentação vegetariana é uma forma de activismo importantíssima na divulgação do estilo de vida vegan.

E assim sendo, uma das coisas que mais gozo me dá quando falo de vegetarianismo é desmistificá-lo com pequenas acções do dia-à-dia.

 

Se são vegetarianos provavelmente já ouviram isto e se não são também é provavel que já tenham dito ou pensado: “Até gostava de fazer comida vegetariana mas é muito complicada, não tenho tempo nem os ingredientes para isso!”

Eu já ouvi mil vezes – e provavelmente também já pensei o mesmo – e adoro mostrar como é tão mais fácil (e saboroso) do que se pensa. O mais engraçado é que nem preciso de fazer ou dizer muito porque a comida fala por si. Seja no trabalho, com a marmita que levo todos os dias, seja em refeições com a família, onde também levo sempre qualquer coisa já preparada, há sempre perguntas e curiosidade sobre o que estou a comer “O que é isso?” “Como é que fazes?”. E eu explico. E adoro ver a expressão na cara das pessoas ao perceberem que tudo é feito com ingredientes que conhecem, que sempre comeram toda a vida ou que, se nunca provaram, sabem o que é e ficam com vontade de experimentar. E ainda adoro mais quando me dizem “Tinha uma ideia muito diferente da comida vegetariana, é mais saborosa e fácil do que pensava” ou “Já fiz isto e aquilo em casa, foi mesmo fácil e adorámos!”

A isto eu chamo plantar a sementinha sem que os outros se apercebam e pela via mais fácil de conquistar alguém: pelo comida! E depois meto lá no meio, assim como quem não quer a coisa, algumas considerações sobre exploração animal e o quão errado é.

 

Porque parece tão difícil?

Mas se é assim tão fácil cozinhar de forma vegetariana, porque é que as pessoas continuam a ter a opinião contrária? Eu identifico algumas razões:

– O desconhecimento sobre o que pode ser um prato vegetariano. Nem sempre se consegue visualizar refeições que fujam à norma da carne com arroz e peixe com batata, de algo principal e de um acompanhamento. Parece que o que os vegetarianos comem são só acompanhamentos e aí surge alguma confusão – então e o que comem para susbstituir a carne e o peixe?

 A crença da obrigatoriedade de substituições. Quando há este pensamento parece imperativo que a soja, o tofu e o seitan sejam elementos obrigatórios no prato vegetariano, para substituir a carne e o peixe. Fica complicado pensar em receitas com estes alimentos “porque são muito difíceis de cozinhar”, mas nem sequer dá para imaginar receitas sem eles. “Afinal, o que é que tu comes?”. Esta crença gera depois a ideia de que a alimentação vegetariana é demasiado complicada (e cara) porque é preciso comprar todos estes susbstitutos e ainda outros como os chouriços e hambúrgueres de soja, os queijos e as bebidas vegetais, as salsichas de tofu e etc.

O boom do vegetarianismo como base da alimentação saudável. Apesar de achar este fenómeno algo fantástico para a difusão do vegetarianismo entre as massas (não as de esparguete, mas as populacionais 😁), por vezes as condições com que a alimentação vegetariana é apresentada faz parecer, no seu extremo, que os vegetarianos só comem coisas que sabe-se lá de onde vêm e onde se compram (e para que servem) – spirullina, maca em pó, chá verde matcha, sal rosa dos himalaias, etc e etc – que tudo é sem glúten, sem açúcar, sem alcóol e sem cafeína e que todos os dias têm de beber batidos verdes detox e fazer refeições cruas. Bom, pode ser, mas não tem de ser! Eu até bebo uns batidos com espinafres e adoro saladas, mas também como pão todos os dias, uma sangria quando apetece e uma fatia de bolo quando a vontade é muita.

 

Desligar o complicómetro

Com toda esta informação eu também estaria pronta para fugir a sete pés da cozinha vegetariana, mas acreditem, não é tão difícil quanto parece. Eu atreveria-me até a dizer que é bem mais fácil do que a cozinha convencional porque os vegetais e as leguminosas já são tão saborosos por si próprios que nos facilitam muito a vida para fazer refeições simples e deliciosas. Aqui ficam algumas ideias para descomplicar as vossas refeições vegetarianas.

 

– Usar alimentos simples. Não precisamos de usar ingredientes que nos são estranhos para fazer boa comida vegetariana. Eu gosto de usar tempeh, miso, tahini e outras coisas como levedura de cerveja, farinha de grão ou geleia de arroz, mas esses ingredientes não são obrigatórios para refeições vegetarianas deliciosas e eu nem os usava quando comecei a cozinhar. O melhor para começar e para descomplicar é mesmo recorrer aos básicos como o arroz, batatas, ervilhas, brócolos, grão, feijão, tomate, cogumelos, couve e todas as coisas boas da alimentação portuguesa. E depois, quando nos sentimos confortáveis, experimentamos então outros ingredientes para criar novos sabores.

– Comprar nos mercados. Não há melhor sítio para encontrar os ingredientes que falei anteriormente. Já disse várias vezes aqui no blog que adoro fazer as minhas compras no mercado e que recomendo totalmente que, se tiverem algum perto, o façam também!  Só vejo vantagens: é mais barato, normalmente o que se encontram são as frutas e legumes que estão na época, muitos produtores pequenos não usam pesticidas deixando que tudo cresça naturalmente e de certeza que vai conhecer tudo o que lá encontrar. Se encontrar algo desconhecido nada como perguntar o que é e pedir dicas ao produtor de como cozinhar. Por vezes é assim que descobrimos novos sabores para as nossas refeições.

– Variar! A cozinha vegetariana é tudo menos aborrecida! São milhares as possibilidades de combinações de vegetais, cereais, frutas, leguminosas e ervas frescas. Às vezes sai um arroz malandrinho com feijão, outras vezes uma salada de arroz, grão e coentros e outras um guisado de grão e batata. Uns dias a salada pode ser de alface e cebola, noutros de beterraba e cenoura e noutros de nabo e maçã (estranho, mas juro que muito bom!). Podemos fazer comida simples sem ter que repetir a mesma coisa todos os dias. O nosso paladar e o nosso organismo agradecem.

– Sem medos. Não há que ter medo de fazer novas combinações, mesmo dos ingredientes mais simples. As migas tradicionais levam broa de milho, couve e feijão frade. Porque não usar feijão manteiga? E porque não juntar uns cogumelos ou uma abóbora assada? E sim, a abóbora costuma aparecer nas sopas, mas porque não assar no forno com outros legumes ou transformá-la num puré? O puré é normalmente de batata, mas e se for de batata doce? Ou de couve-flor? Não há que ter medo de experimentar, de fazer receitas que nunca fizeram ou reinventar aquelas que mais gostam. Ah, e nunca é demais repetir, nada de medos da falta de proteína! Sei que há quem não acredite, mas juro que ela vai lá estar no seu prato. 😉

 

Posto isto, deixo uma receita que respeita muitos destes pontos. É um prato com ingredientes simples: massa, ervilhas, brócolos, alho, azeite, limão e manjericão, todos eles conhecidos e fáceis de encontrar nos mercados de rua ou supermercados. E é uma maneira diferente, mas simples, de fazer uma massa com ervilhas, transformando-as num creme para envolver a massa, onde o sabor dos brócolos se liga tão bem e o manjericão e o limão acrescentam uma frescura que realça o doce das ervilhas. O melhor? É que em menos de meia hora temos esta comida deliciosa para devorar!


Massa com Creme de Ervilhas e Manjericão

Ingredientes

  • Massa a gosto para 2
  • cerca de 1 chávena de ervilhas
  • 1 talo médio de brócolo e as folhas + alguns dos floretes
  • 1 dente de alho médio
  • sumo de 1/2 limão
  • cerca de 2 colheres de sopa de azeite
  • 1 mão cheia de folhas de manjericão
  • sal e água q.b.
  • opcional: 1 colher de sopa de tahini e 1 colher de sobremesa rasa de levedura de cerveja em pó

Nota: a receita foi feita “a olho” pelo que estas quantidades são aproximadas. Sugiro que vá provando o creme de ervilhas e adaptando o sabor a seu gosto. 

Como preparar

  • Coza a massa em água com sal o tempo recomendado para o tipo de massa que escolher.
  • Se tiver um cesto de cozer a vapor, aproveite a panela da massa para cozinhar a vapor as ervilhas e os brócolos, partidos em pedaços, até ficarem molinhos mas sem perderem a cor verde vivo. Se não tiver cesto a vapor coza-os num tacho com água e escorra bem, reservando um pouco dessa água.
  • Reserve algumas ervilhas e os floretes do brócolo. Com a varinha mágica triture as restantes ervilhas e os talos do brócolo com o alho, o manjericão, o sal, o sumo de limão e o azeite (caso use o tahini e a levedura de cerveja, acrescente nesta altura também). Tempere com sal e acrescente água aos poucos (se cozeu as ervilhas no tacho com água, use a que reservou quando as escorreu) até ter uma textura pastosa mas fácil de envolver na massa.
  • Misture a massa com o creme de ervilhas, junte as ervilhas inteiras e os floretes de brócolo e sirva.

 

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